Monday, October 23, 2017

Saudades

Tenho excesso de saudades. Tenho saudade de dividir a banheira com meus irmãos na infância. Saudade do cobertor quentinho nos dias de chuva na casa da vovó. Tenho saudade do cheiro do mar. Tenho saudade do beijo na porta da escola. Saudade de campos verdes e de estradas de terra. Saudade de todas as idades que já vivi, das cidades que já cruzei, dos amigos que vieram e se foram nas encruzilhadas da vida. Tenho tantas saudades, que tenho saudade até de coisas que nunca conheci: tipo, saudade dos tempos em que a Bahia era como nos livros de Jorge Amado. Saudade de um abraço quente, razão do universo. Mãe.

Friday, September 08, 2017

força e coragem

Desde pequena lhe ensinaram a buscar abrigo quando chovesse. A fugir do vento. A evitar arbustos espinhosos. Um dia ela se cansou. Correu por chuva de vento e deixou que os espinhos da vida lhe marcassem com ensinamentos. Tropeçou, levantou-se, tropeçou de novo, ergueu-se outra vez. Algumas rugas surgiram com o tempo, e deixou de ter aquela pele sedosa que os meninos da escola admiravam. Hoje ela não é boneca, não é imagem, tampouco conquistou o mundo e não se diz emancipada. Ela é somente ela, força e coragem. 

Thursday, August 17, 2017

beijo roubado

Ilhas são portos seguros. Estrelas são desejos inconscientes. Pássaros, a liberdade. Palavras confundem mais que explicam. Um formigar sobe o peito e acaricia o pescoço. O rosto se aquece. Lembranças se iluminam. Um cavalo galopeia pelo vasto infinito, o dia se põe por trás de um monte, uma pena voa pelo transparente. Árvores são o pai, os galhos abraçam. O sol é a mãe: luz e calor. O arco-íris é a beleza da trilha impossível. Quando chove, quero correr de braços abertos por ruas e por becos e bater, encharcado, à sua porta. Ver o seu rosto surpreso ao me ver entregue à tempestade. Talvez lhe roubar um beijo e correr de novo chuva a dentro para longe, sem que nós dois jamais entenderemos o que de fato aconteceu.

Tuesday, August 08, 2017

para nunca mais voltar

Ela costumava dizer tudo o que pensava. Sempre teve muitas opiniões. As pessoas a ouviam com atenção e, na maioria das vezes, concordavam. Ela sentia-se importante. Até que um dia descobriu as suas opiniões equivocadas. Acordou, certa manhã, e pensou todas as ideias ao avesso. Ficou envergonhada por um instante, então sentiu um esquisito estranhar: se ela esteve equivocada, todos que com ela concordavam também se equivocavam. Pensou em conversar com os amigos e explicar que o mundo não era bem assim, mas se reteve na possibilidade de estar novamente enganada. Descobriu que as opiniões são como os passarinhos, que nascem, se desenvolvem e depois batem asa, para nunca mais voltar. 

Friday, July 21, 2017

ajudar é um caminho espinhoso

Ela nunca se esquecerá daquele sonho estranho com um avião. Viajava num imenso jato particular. O avião, de tão gigante, poderia transportar milhões de pessoas, mas ela era passageira única. Certa hora, ela olhou pela janela e viu uma multidão de pessoas famintas, pedindo uma carona, implorando por salvação. Então ela mesma se transformou no avião. Querendo ajudar os milhares de famintos, ela tentou aterrissar, mas uma violenta turbulência impediu que pousasse, e a multidão inteira começou a chorar. Despertou do sonho de coração partido. Caminhou até a janela e observou a rua calada na madrugada chuvosa. Havia um mendigo passando frio em baixo de uma marquise. Quis lhe levar um cobertor, mas teve receio de descer para a rua, sozinha, no escuro. Sentiu-se impotente; havia tanto a fazer pelos outros, sem que ela, de fato, conseguisse fazer. Naquela noite ela descobriu que ajudar os menos favorecidos não é uma simples questão de ter um bom coração: ajudar é um caminho espinhoso.

Saturday, July 15, 2017

a felicidade é uma casa sem paredes

Quando criança, ela sonhava em ser cantora. Fazia apresentações para os adultos, imitando a estrela do momento. Depois, no início da adolescência, sonhou em ser modelo. Era um sonho um pouco mais sério que o de ser cantora. Reclusa em seu quarto, longe de olhares estranhos, desfilava na frente do espelho e se imaginava nas passarelas do mundo. Finalmente, já quase adulta, sonhou em ser atriz. Repetia os diálogos das telenovelas e se entregava ofegante nas cenas de beijo. Os anos correram, a vida enveredou por caminhos inesperados; dos sonhos de fama fez-se a realidade do sustento diário. Hoje, quando ela pensa para trás, um sorriso sincero quebra a dureza rotineira. Ela se dá conta de que foi primeiro cantora, depois modelo, então atriz. Ninguém, jamais, há de nos tirar os sonhos, ela percebe. E, às vezes, de noite após uma longa jornada de trabalho, ela fecha os olhos e se enxerga nos mesmos palcos em que foi estrela quando na idade dos sonhos. Os holofotes imaginários ofuscam qualquer frustração. Livre ela se sente, pois livre ela é: a felicidade é uma casa sem paredes.

Thursday, July 06, 2017

ela é simples e simples encanta

Ser complexo é buscar metáforas indecifráveis; é dificultar o fácil; é fazer curvas sobre retas. Ser simples é dizer bom dia; é sorrir, é dar um abraço; é tomar banho de chuva. Ser complexo é analisar cada sentimento. Ser simples é sentir o sentimento, sem analisá-lo. Ser complexo é conhecer receitas sofisticadas. Ser simples é fechar os olhos e buscar o sabor de tangerina na esquecida infância. Ser complexo é a tentativa de explicar a existência: ser simples é existir. Ela dança ao vento, e suas pegadas se espalham pela areia. Ela mexe os lábios quando pensa. Ela é simples e simples encanta.