Wednesday, June 21, 2017

a menina e a montanha

Alguns rapazes, sempre implicantes, inventaram para a menina que havia um mestre no topo da montanha, com respostas para todas as dúvidas do universo. Ela, mergulhada em questões existenciais, subiu a trilha ardilosa até o cume do monte. Chegando lá, percebeu que fora enganada e que não havia mestre algum. Chateada, sentou-se sobre uma pedra e espiou os horizontes distantes. Permaneceu lá por longas horas, e o olhar amadureceu. Como se, de repente, compreendesse cada uma das palavras que lhe roubavam o sono de madrugada. Quando retornou, os rapazes perguntaram, em tom de ironia, como fora o encontro com o mestre. Ela sorriu e respondeu que eles estavam enganados, não havia mestre algum no alto do monte. Os rapazes ameaçaram rir, quando a menina completou “na verdade é uma mestra, uma mulher; e ela me mostrou que vocês e eu, apesar das implicâncias, um dia seremos as melhores memórias uns dos outros.” Os rapazes, atônitos, disfarçaram a incompreensão e dispersaram. No dia seguinte, subiram até o alto da montanha, na esperança de encontrar a mulher sábia, mas apenas se depararam com uma pedra vazia.

Friday, June 16, 2017

medo de dizer bom-dia

Eu sempre tive muitos medos. Ainda tenho. Há quem afirme que são inseguranças, mas eu gosto de dizer que são medos. Inseguranças me parecem descrições de livros de ciência; medos são a vivência do dia a dia. As vezes, tenho medo de ter os medos errados. Tipo, ter medo da lua, quando, na verdade, eu deveria ter medo da escuridão. Correndo contra o tempo, tenho medo de que meu tempo já se tenha passado há muito tempo. Como a nuvem que vem para trazer uma sombra inútil à noite. E quando minha alma gêmea passa por mim, tenho medo de dizer bom-dia.

Thursday, June 15, 2017

a flor no deserto

Lá vou eu levar minhas pilhas coletadas para jogar fora, como sempre, no ponto de coleta do supermercado da esquina. Chego lá para descobrir que o estabelecimento não recolhe mais as pilhas.
Na mídia brasileira corre a indignação com o fato de que Trump deixou o acordo climático de Paris. Olho ao redor e penso que o acordo climático é o de menos perto do descaso generalizado com o meio ambiente no Brasil.
Nossos rios urbanos são valas de esgoto ao céu aberto. As baías perto de cidades são bacias de poluição. As pilhas e lâmpadas não tem descarte adequado. Nas praias, o lixo fica na areia. Nos mercados, as sacolas de plástico se multiplicam e multiplicam. A reciclagem é iniciativa de poucos. Tenho amigos, formados e estudados, que até hoje não separam o lixo reciclável, sob a desculpa de que "no meu prédio não tem coleta seletiva". Eu penso que reciclagem não é conforto, é consciência e dá trabalho.
Enquanto penso sobre tudo isso, três tiros são disparados na subida de uma favela perto de casa. Algumas pessoas se jogam no chão, assustadas, outras seguem como se tiro fosse parte inevitável da rotina. Eu, confesso, fiquei no grupo dos que se acostumaram, apenas apressei os passos, carregando minha sacola de pilhas ainda sem destino.
Pode haver conscientização ecológica enquanto não há paz? Seria a crônica agressão ao meio ambiente apenas outra face de nossa natureza violenta?
Lembro do desastre da Samarco e percebo minúscula minha iniciativa de preservar a natureza, ao descartar as pilhas de forma adequada. De noite, quando olho para o céu, percebo o quão minúsculo somos todos nós. Então, se for para comparar minhas ações com escalas de grandeza, é melhor sentar de baixo de uma árvore e esperar a vida passar. Do ponto de vista universal, tudo que se faz, por maior que seja na concepção humana, é um pingo no infinito.
Vou procurar por outro lugar para descartar as pilhas. Que a humanidade não desista perante as dificuldades de tentar fazer o que simplesmente é certo. O milagre está nos detalhes: na singela flor que sobrevive no deserto.
Encoraja pensar que, quanto maior for o deserto, maior é o milagre da flor solitária.

Monday, June 05, 2017

velejar pelas verdades do mundo

Corro na beira do mar e sinto o universo grunhindo sob os meus pés. A terna espuma branca me guia pela noite. Alguns casais namoram longe dos postes da calçada, e sentem-se invadidos quando passo por eles. Finjo ignorá-los, para que possam se eternizar nos braços um do outro. A cidade ilude, a maresia alerta. Sigo correndo. Percebo uma luz na escuridão do mar e imagino um navegante perdido no horizonte negro. Paro e respiro. Sinto o coração se acelerar no céu da boca. De um lado, as milhares de luzes da cidade, do outro, a luz do navegante solitário. Quem corre risco de se perder? Nós na cidade ou ele em alto-mar? Penso que já me perdi há muito tempo e que preciso ter meu próprio barco, para me encontrar. Velejar pelas verdades do mundo, longe dos holofotes da vaidade.

Tuesday, May 30, 2017

ser livre

O que vou dizer hoje é que você não deve prestar tanta atenção nas coisas que lhe acontecem. Ao invés disso, perceba o que você sente quando algo lhe acontece. Muitos acontecimentos são influenciados por fatores que, em princípio, não podem ser controlados. Mas o que você sente quando algo acontece, esse sim é um fenômeno que cabe unicamente a você. É a história da menina que ficava triste, pois um menino que ela idolatrava viva lhe debochando. Até que a menina deixou de idolatrá-lo e, no mesmo instante, ela parou de se entristecer com os deboches. O menino, quando percebeu que ela não mais se entristecia, parou de debochar, pois a implicância perdera o sentido. E a menina, agora livre, interessou-se por outra pessoa, que lhe correspondeu de coração.ser livre

Monday, May 15, 2017

o amor é a pedra fundamental do universo

Hoje um ladrão furtou o celular de uma senhora. O ladrão estava acompanhado de um pivetinho, de, no máximo, 5 anos. O ladrão fugiu e a população pegou apenas o pivetinho. A notícia boa é que a maior parte do grupo que pegou a criança viu que se tratava apenas de uma criança. Seguraram ele e esperaram a policia chegar. A notícia triste é que havia pessoas querendo espancar o menino. Adultos de 40, 50 anos, querendo machucar um criança de cinco anos, que sequer fora autor principal do roubo. Então percebo o que a violência faz ao brasileiro: estamos perdendo a essência humana. A face silenciosa da violência é que ela recruta nossas almas. Compaixão vira ódio, e o mundo passa a girar em torno da necessidade imediata por segurança. Precisamos de segurança, e quem ameaçá-la é considerado inimigo passível da pena de morte. As vezes, o ódio me alcança também, e temo por minha individualidade: tenho medo de virar mais um desalmado nesse mar de zumbis, pregando a mesma ideia intransigente de combater a violência através da violência. Como se picada de cobra se curasse com picada de cobra. O amor é a pedra fundamental do universo.

Friday, May 12, 2017

somos seres passageiros

A certeza de hoje é a dúvida do amanhã. O azul, que hoje fascina, amanhã é rosa. A música preferida cai no esquecimento, e outra melodia invade a mente. Alguns amigos de ontem agora já não o são mais. Amores vão, amores vem, inverno, primavera. Ídolos evaporam, outros se firmam, invertemos a opinião. Trocamos os quadros nas paredes, trocamos de paredes, corremos na imensidão. Somos seres passageiros; em vida.